terça-feira, 15 de abril de 2014

Serra do Umbuzeiro - Paulo Afonso/BA

Perto do céu...

A altura sempre cativou o homem, desde os primórdios tempos das cavernas.
Há algo de místico nisso, alguma proximidade com o divino, alguma sensação de controle. Talvez faça parte do nosso subconsciente desde a época em que fugíamos de predadores e a visão privilegiada trazia alguma vantagem estratégica.

Depois de vos presentear com essa profunda filosofia, agora posso falar do local da postagem de hoje, a Serra do Umbuzeiro, em Paulo Afonso/BA.

Vista do topo da Serra do Umbuzeiro

Essa formação geológica (notem aqui o requinte do meu vocabulário científico) possui impressionantes 260 metros acima do nível da cidade de Paulo Afonso. Seu ponto mais alto permite uma visão de 360 graus da região e uma de suas faces é uma parede quase vertical.

Fenda esculpida pelo tempo que transpõe a rocha

É incrível como um lugar como esse não é largamente conhecido e explorado turisticamente. Cabe então a este desbravador que vos fala oferecer a vocês as vias para desfrutar desse privilégio.

Como chegar

A Serra do Umbuzeiro situa-se a 24 quilômetros do cento da cidade de Paulo Afonso. É possível vê-la, imponente, a oeste de qualquer ponto cidade.



É possível chegar à base da serra com qualquer tipo de carro. A graça não está nessa parte, o divertido mesmo é a subida a pé.

  1. Vá até Paulo Afonso e se hospede lá, a não ser que você seja aventureiro "último grau" e resolva acampar na própria serra. É possível e bem interessante;
  2. Saia da cidade pela BA-210 em direção a Delmiro Golveia e em seguida (à direita no trevo da PF) siga pela BR-110 em direção a Jeremoabo;
  3. O primeiro vestígio de civilização será um lugarejo chamado Riacho (os nativos chamam de Riachinho);
  4. À esquerda, entre ao lado da igreja matriz e siga pela estrada de terra que leva à casa de Maria Bonita (que ainda será tema de uma postagem aqui);
  5. Passe no conjunto arquitetônico de Dona Generosa, grande coiteira de Lampião, local que guarda muitas histórias do cangaço;
  6. Em um desvio curto à direita, chega-se ao ponto onde é preciso deixar o carro e seguir por uma trilha íngreme a pé. Grau de dificuldade baixo e uma vista espetacular.
Capela do conjunto arquitetônico de Dona Generosa. Serra ao fundo.

Como eu disse no início, esse não é um ponto turístico comumente explorado, então nem se aventure em chegar lá por conta própria. Você precisará de um guia.
É possível procurar empresas de turismo na própria cidade de Paulo Afonso ou adotar o modo alternativo, baixo custo, aventureiro e pegar um guia nativo no próprio distrito do Riachinho. Claro que foi essa a opção que adotamos, afinal a melhor maneira de interiorar é conhecer gente que possui, de fato, a cultura do lugar.
Nosso "guia" chamava-se Seu Zé, que nunca foi guia de nada. Era simplesmente um criador de cabras que cresceu na região e subia e descia a serra seguindo caprinos com seu cajado. Perguntamos se ele topava nos levar até o topo da serra e ele aceitou na hora.
Seu Zé se perdeu várias vezes durante a subida. Diversão pura, a legítima exploração do local, bebendo água de croatá e ouvindo histórias sertanejas.

Seu Zé, guia improvisado, sertanejo experiente.


A Serra

A formação é um elevado de rocha no centro de uma grande planície. Uma de suas faces é vertical e a outra decai gradualmente, como se fosse um convite da natureza para que o mirante lá no alto seja alcançado.
A trilha é um caminho estreito em meio à caatinga. O escasso tráfego de pessoas exige o uso de um facão eventualmente, mas nada que impeça a caminhada.

Início da trilha na base da serra.
A fauna e a flora ainda se mostram bem conservadas no local. É possível se deparar com gaviões, urubus ao sol, vários pássaros nativos e diversas flores, inclusive as cactos que são mais raras.

Um urubu tomando sol tranquilamente.
Ao longo de milhões de anos, a água e o vento esculpiram os paredões e deram formas bem peculiares às pedras.

Vista a meio caminho da subida.
Formação rochosa que lembra um pato.
Parte superior da serra.
O vôo dos urubus é parte da paisagem no sertão.
Bem próximo ao topo, existe uma gruta que os nativos chamam de buraco da onça. Uma profunda fenda na rocha que, em seu ponto mais recuado, dá acesso à parte superior da serra. É uma fissura natural na pedra que só permite o acesso de uma pessoa por vez e proporciona uma cena muito pitoresca a quem assiste a passagem a partir de cima. É como um parto de uma pessoa saindo do buraco.

"Buraco da onça". Gruta no topo da serra.
A Serra do Umbuzeiro ainda guarda pintura rupestres (essas não encontramos, mas os guias de verdade garantem que existem) e os famosos caldeirões, pequenos lagos que se formam nas cavidades das rochas e armazenam água da chuva.

Este é um lugar que, definitivamente, vale a pena se conhecer.